Carta Mensal aos Clientes – Setembro 2025

“A economia é um jogo de escolhas sob restrições. Ignorar as restrições não torna as escolhas melhores.” Thomas Sowell Cenário Local O mês foi marcado pela reafirmação do Copom de uma postura “vigilante”, com a Selic preservada em 15% e comunicação dura quanto à necessidade de manter a política em terreno significativamente contracionista por período prolongado. Em paralelo, a discussão fiscal voltou ao centro do tabuleiro: de um lado, medidas de natureza distributiva (ampliação da faixa de isenção do IR, desenho de alíquotas mínimas para altas rendas); de outro, a orientação do TCU para perseguir o centro da meta primária, implicando contingenciamentos mais rígidos e, portanto, risco de contração adicional da demanda pública no curto prazo. Esse arranjo—monetário restritivo com fiscal pressionado por metas mais duras—cria um ambiente de crescimento moderando e volatilidade de expectativas, no qual a precificação de ativos passa a depender mais da credibilidade das ancoragens do que de surpresas cíclicas pontuais.  No front de atividade, os indicadores antecedentes sinalizam desaceleração: o IBC-Br acumulou leituras negativas em sequência, e a composição do PIB do 2º trimestre já havia mostrado perda de fôlego dos investimentos após seis trimestres de expansão, com consumo de famílias arrefecendo na margem. Esse resfriamento dialoga com um mercado de trabalho ainda resiliente, porém menos dinâmico na criação líquida formal (Caged abaixo da mediana), e com uma realidade de crédito mais friccionada: a inadimplência de pessoas físicas segue em patamar historicamente elevado, empresas registram maior estresse de rolagem, e segmentos específicos, como o agro, têm evidenciado deterioração de NPLs na margem. O caso do Banco Master—no qual a análise de risco sistêmico, o papel do FGC e o risco moral entraram no radar do regulador—funcionou como um lembrete de que funding agressivo com spread “fácil” carrega riscos latentes que, em ambientes de juros altos e crescimento mais fraco, tendem a se materializar com velocidade. Para o investidor, a mensagem é clara: o prêmio de crédito existe, mas precisa ser capturado com governança, granularidade e hierarquia de risco bem definidas (setores, originação, subordinação e garantias).  A inflação, por sua vez, manteve um comportamento errático: deflação no IPCA de agosto, seguida de aceleração no IPCA-15 de setembro com a reversão do “bônus de Itaipu” na energia elétrica, expôs a sensibilidade do headline a choques administrados e sazonais. O núcleo segue teimoso em patamar desconfortável, coerente com a leitura do Copom de expectativas desancoradas. Em termos de função de reação, o comitê reforçou que cortes prematuros seriam contraproducentes. O corolário para a curva a termo é uma inclinação que oscila ao sabor do noticiário fiscal e das leituras de inflação subjacente, mantendo o canal de juros real longo aberto—o que sustenta, taticamente, oportunidades em NTN-Bs intermediárias, desde que calibradas à tolerância de volatilidade e a horizontes de carregamento consistentes.  No âmbito político-institucional, o ruído permanece material. A tentativa de reconfigurações constitucionais que afetam accountability, a posterior rejeição no Senado, e as sinalizações do Executivo em temas de soberania e regulação compõem um pano de fundo que mexe com prêmios de risco e, por consequência, com o câmbio e a bolsa. Do ponto de vista tributário-regulatório, a discussão de tributação de LCIs/LCAs e um IR fixo futuro para aplicações financeiras têm externalidades sobre o custo de funding de imobiliário e agronegócio, com potenciais desdobramentos na curva de crédito privado e no apetite por emissões; a precificação pode exigir um realinhamento de spreads, sobretudo em estruturas seniores sem colateral robusto. Em paralelo, o stress idiossincrático no ecossistema de FIAGROs após eventos de crédito no agronegócio reforça a necessidade de análise bottom-up de risco de contraparte, concentração por cadeia e governança de recebíveis.  Mercados locais refletiram esse mosaico: o Ibovespa oscilou em ritmo ainda positivo no Year to Date, ancorado por segmentos ligados a juros (utilities e parte de consumo resiliente), ao passo que casos de beta cíclico doméstico continuam dependentes de maior visibilidade fiscal e de um turning point mais crível na política monetária. No câmbio, o real respondeu à combinação de termos de troca neutros, carry ainda elevado e incerteza política, mantendo volatilidade intrínseca. Para a renda fixa, as curvas DI precificam um “caminho estreito” de flexibilização, sem consenso de timing, o que favorece estratégias de carry versus convexidade, com menor exposição a cauda fiscal.  Traduzindo o diagnóstico em alocação local, nossa visão é de pragmatismo com viés de qualidade:   Além da leitura estrutural sobre crédito, é impossível ignorar os episódios recentes envolvendo Braskem e Ambipar. Ambos os casos reiteram que, em ambiente de juros elevados e credores mais seletivos, fragilidades idiossincráticas tendem a se traduzir em movimentos abruptos de mercado. A Braskem, pressionada pelo passivo ambiental em Alagoas, pela prolongada crise do setor petroquímico e pela incerteza em torno de sua venda, viu seus bonds desvalorizarem até 80% em questão de dias, sinal de que o mercado precifica não apenas risco setorial, mas também governança e perspectiva de liquidez. Já a Ambipar, após aditivo contratual controverso e deterioração de caixa, entrou em tutela cautelar contra credores e sofreu rebaixamento a “default” por agências internacionais, o que levou a uma queda expressiva de mais de 65% em suas ações. Esses eventos reforçam que o prêmio de crédito brasileiro não pode ser capturado indiscriminadamente: a curadoria de portfólio exige diligência aprofundada em governança, sustentabilidade de geração de caixa e clareza nos passivos contingentes. Para o investidor institucional, a lição é clara — crises corporativas isoladas podem contaminar percepção de risco sistêmico e demandam ainda mais rigor na hierarquização de emissores, no equilíbrio entre high grade e high yield e no uso de fundos com gestão ativa de crédito.  Em síntese, o Brasil segue operando sob um regime de “duas ancoragens em teste”: a monetária, já contratada e dura, e a fiscal, ainda em processo de validação prática. Enquanto a segunda não se materializar de forma convincente, a melhor resposta de portfólio é combinar carregos de alta qualidade com convexidade selecionada, mantendo liquidez para rotacionar na abertura de janelas táticas. A prioridade é preservar assimetria: capturar prêmio real sem

Carta Mensal aos Clientes – Agosto 2025

“A economia é um jogo de escolhas sob restrições. Ignorar as restrições não torna as escolhas melhores.” Thomas Sowell Setoriais – US ETFS – Mundo Cenário Local O ciclo doméstico entrou numa fase assimétrica: a atividade ainda mostra bolsões de resiliência (serviços, agro e infraestrutura), enquanto a taxa de juros real segue restritiva e o balanço de riscos do Banco Central permanece dependente de dados. O arcabouço fiscal requer execução disciplinada para ancorar expectativas; sem isso, o prêmio de risco volta à curva e encarece o custo de capital. Em paralelo, o câmbio opera com volatilidade estrutural — sensível a termos de troca, fluxo de portfólio e ruído político —, o que pede proteção tática e gestão ativa de duration.   Base case. Projetamos um trimestre de desinflação lenta, com núcleos acima do centro da meta, porém em trajetória benigna. Nesse ambiente, o Copom preserva comunicação prudente; eventuais cortes adicionais só ocorrem se o combo “serviços + difusão + expectativas” continuar melhorando. Nos juros, a inclinação da curva deve achatar marginalmente, refletindo menor prêmio de prazo à medida que o fiscal sinalize compromisso e a atividade arrefeça no ritmo adequado. O crédito corporativo reabre de forma seletiva, com alongamentos em emissores de alta qualidade; no varejo, a inadimplência tende a estabilizar, mas exige políticas comerciais mais cirúrgicas e foco em recuperação.   Cenário altista (otimista). Uma combinação de execução fiscal crível, safras favoráveis e energia mais barata reduziria o hiato inflacionário e liberaria espaço para queda adicional da Selic. Resultado provável: deslocamento para baixo da curva DI, compressão de prêmio em NTN-Bs intermediárias e retomada de múltiplos em setores sensíveis a juros (construção, consumo discricionário e small caps), desde que acompanhados de balanços robustos e alavancagem sob controle.  Cenário de estresse. Um choque de credibilidade fiscal, ruído institucional persistente ou aperto internacional (commodities em alta, dólar forte ou Treasuries tensionadas) elevaria a aversão a risco. O real se depreciaria, expectativas de inflação poderiam desancorar e o BC pausaria o ciclo ou retomaria viés contracionista. Nesse quadro, a curva empinaria e ativos domésticos reprecificariam em modo defensivo; a prioridade passaria a ser preservação de caixa, duration curta e crédito de primeira linha.   Indicadores-chave para as próximas 4–8 semanas: (i) IPCA com foco em serviços subjacentes e difusão; (ii) trajetória do resultado primário e dinâmica de gastos obrigatórios; (iii) fluxo cambial e investimento direto; (iv) cronograma de leilões e capex de infraestrutura; (v) safras e regime de chuvas; (vi) pipeline de emissões no mercado local; (vii) evolução do emprego formal e massa de rendimentos.   Implicações para portfólios. Adotamos um barbell entre proteção real (NTN-Bs intermediárias) e exposição tática a pró-cíclicos de qualidade. Em renda variável, preferimos empresas com geração de caixa, disciplina alocativa e pricing power em consumo essencial; em utilities e concessões, visibilidade regulatória segue como âncora defensiva. No câmbio, estratégias assimétricas ajudam a suavizar volatilidade de passivos em moeda forte. Em crédito privado, seletividade: evitar alongamentos em emissores com métricas esticadas e priorizar estruturas com covenants claros. A mensagem central é de execução: navegar o próximo movimento do ciclo com disciplina, mitigação de caudas e captura de assimetrias onde o prêmio de risco ainda compensa.  Cenário Internacional O ciclo internacional avança em desaceleração organizada, com desinflação em curso e política monetária ainda em terreno restritivo nas economias centrais. A dinâmica setorial permanece assimétrica: tecnologia, semicondutores, data centers e infraestrutura vinculada à transição energética preservam capex elevado e backlog robusto, enquanto indústria tradicional e consumo discricionário exibem perda de fôlego e maior sensibilidade ao preço do dinheiro. O apetite a risco segue dependente das trajetórias de energia, das fricções geopolíticas e do calendário eleitoral das grandes economias, com o tema “higher for longer” funcionando como linha de base para a precificação dos ativos globais.  Nos Estados Unidos, a demanda desacelera sem ruptura, bens já normalizados dividem espaço com serviços perdendo inércia de forma gradual e a produtividade continua sendo o coringa que permite pouso suave com menor custo social. O banco central mantém postura estritamente orientada a dados: progressos consistentes no PCE, desaceleração do núcleo de serviços e acomodação de salários são condições para flexibilização adicional. Nesse ambiente, a parte intermediária da curva de Treasuries concentra a sensibilidade a surpresas de payroll e de ISMs, enquanto o dólar permanece sustentado por juros reais positivos e diferencial de crescimento. Em resultados corporativos, temas ligados à digitalização e à infraestrutura de IA lideram a expansão de lucros, ao passo que varejo discricionário e construção residencial operam com maior heterogeneidade e dependem de melhora sequencial de confiança e renda.  Na Europa, o crescimento segue fraco e heterogêneo: a indústria ainda carrega o choque energético e o encarecimento do crédito, ao passo que serviços sustentam o PIB com margens comprimidas. A autoridade monetária calibra uma flexibilização gradual e condicional, buscando preservar a âncora de expectativas enquanto monitora salários negociados e crédito bancário. O espaço fiscal é mais estreito e a política econômica tende a priorizar eficiência alocativa e produtividade. Para investidores, isso se traduz em preferência por emissores com balanços robustos, governança sólida e acesso diversificado a funding, além de exposição tática a exportadores com cadeias produtivas parcialmente fora do bloco. No Reino Unido, a desinflação avança em ritmo mais lento e a política monetária deve seguir prudente, com alívio marginal dependente da trajetória do núcleo de serviços.  Na Ásia, a prioridade é estabilizar o mercado imobiliário na segunda maior economia do mundo, sustentar governos locais e direcionar estímulos para manufaturas de maior valor agregado e tecnologias estratégicas. O desenho é pragmático e gradual, com avanços incrementais de confiança. Ao mesmo tempo, Japão migra de um regime de deflação crônica para inflação moderada, o que reposiciona a política do banco central, aumenta a volatilidade do iene e pode acionar repatriações que reprecificam fluxos globais. Coreia do Sul e Taiwan se beneficiam do novo ciclo de semicondutores e do investimento em infraestrutura digital, enquanto o Sudeste Asiático captura parcelas do redirecionamento de cadeias, ampliando a competição por capital produtivo.  Em commodities, petróleo oscila entre disciplina de oferta

Carta Mensal aos Clientes – Julho 2025

“A economia é um jogo de escolhas sob restrições. Ignorar as restrições não torna as escolhas melhores.” Thomas Sowell Setoriais – US ETFS – Mundo Cenário Local O mês de julho contou com uma série de eventos relevantes no Brasil, que impactaram o ambiente político-econômico, a confiança institucional e, por consequência, a percepção de risco nos mercados. Apresentamos a seguir uma análise clara, sem juízo de valor, com foco na implicação desses acontecimentos para a economia e rentabilidade dos investimentos.  No campo institucional e jurídico, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, anulou na íntegra todos os atos da Lava Jato contra o doleiro Alberto Youssef, decisão oficializada em 15 de julho de 2025 sob o entendimento de que houve conluio entre os investigadores, ex-juiz Sergio Moro, Ministério Público e a Polícia Federal, comprometendo garantias fundamentais. A decisão fortalece a discussão sobre segurança jurídica e possíveis reverberações para outros processos, já que já surgem pedidos semelhantes — como o ex-governador Sérgio Cabral — invocando os mesmos argumentos.  Em paralelo, o setor fiscal voltou a ser tema central. A dívida pública bruta atingiu 76,6% do PIB em junho, conforme dados do Banco Central, refletindo incremento de 0,5 ponto percentual em relação ao mês anterior. O déficit primário do setor público consolidado totalizou R$ 47,1 bilhões, acima do previsto, elevando a percepção de fragilidade fiscal. A necessidade de R$ 86,3 bilhões em receitas extras já em 2026, mesmo após a elevação recente do IOF, reforça o cenário de aperto para contas públicas.  Esse contexto ampliou a relevância das discussões sobre a reforma tributária. O relatório aprovado prevê elevação da faixa de isenção do IR para até R$ 7.350 e manutenção de alíquota de 10% sobre dividendos para rendas acima de R$ 1,2 milhão/ano, medida que busca maior justiça fiscal sem onerar demasiadamente investidores institucionais. Entretanto, a efetividade dependerá de eficiência na gestão pública e contenção de evasões fiscais — pontos destacados por gestores como Eduardo Paes e Eduardo Leite.  No plano legislativo, o Supremo também confirmou o restabelecimento do decreto que elevou o IOF para operações de câmbio e cartões internacionais, com efeitos retroativos desde 27 de junho. Apenas a cobrança sobre “risco sacado” foi revogada. O impacto fiscal estimado soma até R$ 12 bilhões em 2025, reforçando a centralidade do Judiciário na regulação econômica relevante.  A crise do INSS ganhou destaque nacional. A descoberta de fraudes levou à demissão do ministério responsável e à abertura de um crédito extraordinário de R$ 3,3 bilhões para ressarcir aposentados. Essa situação provocou a instalação de uma CPMI no Congresso, com foco nas falhas de controle e governança do sistema previdenciário — tema que deve dominar o debate público nos próximos meses.  No setor externo, os Estados Unidos anunciaram um aumento da tarifa sobre produtos brasileiros para 50%, válida a partir de meados de agosto. Embora prevista alta sobre 35,9% das exportações por valor — incluindo café, carne, frutas e itens industriais — houve exceções para cerca de 700 produtos, correspondentes a aproximadamente 45% da pauta de exportação do Brasil. Estão fora da taxação setores como aviação civil (Embraer), energia, fertilizantes, minérios, suco de laranja e ouro. Essa dinâmica reduz os efeitos menos favoráveis, apesar da retórica protecionista.  Somado a isso, os Estados Unidos aplicaram sanções ao ministro Alexandre de Moraes via Lei Magnitsky, suspendendo seus ativos e restringindo vistos e crédito em instituições americanas. Essa ação ampliou a tensão diplomática e reforçou o papel do Judiciário no cenário geopolítico.  Com relação à política monetária, o Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano, consolída após mais um ajuste no Copom. A decisão era amplamente esperada e busca assegurar controle inflacionário diante da escalada da dívida pública e dos desequilíbrios fiscais. Ainda assim, setores como varejo e construção civil surgem como possíveis beneficiários em um eventual ciclo de flexibilização, condicionada à clara demonstração de compromisso com reformas e ajuste estrutural.  Em síntese, o mês de julho acelerou o escrutínio sobre os pilares institucionais e fiscais do país. O impacto sobre a confiança dos agentes ficou evidente, ao passo que a volatilidade política e o ruído legislativo testam a resiliência dos mercados. No entanto, a economia segue com fundamentos sólidos em diversos setores, e a clareza de um plano fiscal sustentado e previsível continua sendo o fator decisivo para a percepção de estabilidade e continuidade nos investimentos.  Seguimos monitorando os desdobramentos da CPMI, a tramitação da reforma tributária e a capacidade fiscal do governo de atender às expectativas sem comprometer a governança.  Cenário Internacional Julho encerrou-se como um mês emblemático para a reconfiguração das relações comerciais, institucionais e geopolíticas globais. A dinâmica dos mercados financeiros internacionais foi amplamente influenciada por decisões estratégicas dos Estados Unidos, indicadores de desaceleração econômica na China e movimentos diplomáticos dos BRICS, tudo isso em meio a um ambiente de inflação persistente e crescente regulação sobre tecnologias emergentes. O investidor global de hoje se depara não apenas com oscilações pontuais, mas com a construção de um novo arcabouço de riscos e oportunidades.  Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump reintroduziu com força sua doutrina de protecionismo comercial ao assinar um pacote tarifário que impõe sobretaxas de até 50% sobre produtos de 68 países, entre eles parceiros estratégicos da Ásia, Europa e América Latina. Para países alinhados às políticas dos BRICS, foi acrescida uma tarifa adicional de 10%, evidenciando um reposicionamento do país no tabuleiro geopolítico global. A medida, embora prorrogada para entrar em vigor a partir de 7 de agosto, já causou forte impacto nos mercados acionários globais, sobretudo nas bolsas europeias e asiáticas, refletindo a reprecificação do risco de cadeia produtiva.  Esse movimento tarifário tem gerado preocupação adicional com a inflação americana. A ata mais recente do Federal Reserve revelou divisão interna entre seus membros, com parte do comitê temendo que o novo pacote de tarifas pressione os preços de bens de consumo e reabra um ciclo inflacionário. As vendas no varejo continuam modestas, mas os custos repassados pela indústria já sinalizam um desafio para a trajetória futura

Carta Mensal aos Clientes – Junho 2025

“Ao subestimar os riscos geopolíticos e a ‘incerteza do regime’ imposta por políticas voláteis, investidores podem estar pagando um preço alto no silêncio da aparente calmaria.” Steve Hanke Setoriais – US ETFS – Mundo Cenário Local O mês de junho trouxe sinais de alívio para os investidores brasileiros. Após um primeiro semestre marcado por turbulências, principalmente ligadas ao quadro fiscal e aos embates entre o Executivo e o Congresso, o mercado passou a enxergar um ambiente momentaneamente mais calmo. O reflexo mais visível disso foi a queda nas taxas de juros de longo prazo — o chamado fechamento da curva de juros. Esse movimento favorece, sobretudo, os investimentos em renda fixa com prazos mais longos, como títulos prefixados e fundos de crédito privado.  Essa melhora nos preços dos ativos, no entanto, não deve ser interpretada como uma virada de ciclo, mas sim como um respiro tático. Parte dela veio da combinação entre uma inflação corrente sob controle, a atividade econômica em desaceleração e um certo esgotamento do fluxo de más notícias. O IPCA de junho, por exemplo, veio abaixo do esperado, puxado por quedas em itens voláteis como alimentos e combustíveis. Isso reforçou a convicção de que o Banco Central terá espaço para encerrar o ciclo de cortes da Selic em breve, com uma taxa básica próxima de 15% ao ano — cenário que transforma o posicionamento em renda fixa, tornando mais atrativa a alocação em duration intermediária ou longa.  Mas, por trás desse alívio técnico, os desafios estruturais seguem latentes — e talvez até mais visíveis do que antes. O episódio mais emblemático do mês foi a derrubada do decreto do IOF pelo Congresso Nacional, em um movimento raro, que não ocorria há quase três décadas. O veto da Câmara à elevação do IOF para determinadas operações de câmbio foi entendido pelo mercado como um sinal direto de enfraquecimento do governo federal perante o Legislativo.  Esse embate explicitou a fragilidade da articulação política do Executivo e acendeu um novo alerta sobre o ambiente institucional. Além disso, expôs o risco de paralisia administrativa, já que medidas de arrecadação ou ajustes fiscais passam a enfrentar obstáculos relevantes na arena parlamentar. Para os investidores, a imprevisibilidade legislativa associada à fragilidade do Executivo compõe um risco adicional — especialmente para ativos domésticos sensíveis à percepção de governabilidade, como os juros longos e o câmbio.  Essa instabilidade política ganha ainda mais relevância quando combinada com outro elemento crescente: a antecipação do debate eleitoral para 2026. A percepção de que o governo atual caminha para uma deterioração da sua base de apoio, somada a uma popularidade em queda acentuada, já começa a influenciar as decisões dos investidores. A recente pesquisa Genial/Quaest apontou 57% de desaprovação ao presidente Lula, o maior índice desde o início de seu terceiro mandato. Em paralelo, o mercado começa a precificar um possível reposicionamento político à direita, com impactos já visíveis na performance de determinados setores e ativos.  Essa antecipação eleitoral é ainda mais sensível quando se observa o comportamento do Congresso. Parlamentares — atentos ao reposicionamento de suas bases eleitorais — tendem a assumir posturas mais independentes e, muitas vezes, conflituosas com o Executivo, travando ou alterando projetos estratégicos. A derrubada do IOF pode ser apenas o primeiro capítulo de um ambiente legislativo mais hostil e fragmentado, que deverá se intensificar até o pleito presidencial.  No campo fiscal, a reforma tributária, embora aprovada, entra agora em uma fase delicada: sua implementação e regulamentação. O projeto, que nasceu com a proposta de simplificar e unificar os tributos sobre o consumo, acabou sofrendo mudanças que aumentaram significativamente sua complexidade. A inclusão de carnes na cesta básica com imposto zero e o tratamento diferenciado a produtos como queijos, farinhas, flores e laticínios elevaram a alíquota estimada do novo IVA para 28%, segundo o Ministério da Fazenda. Essa seria, se confirmada, a maior alíquota do mundo, o que pode trazer impactos relevantes sobre o consumo e a competitividade da economia brasileira.  Muitos economistas já alertam que o novo modelo, embora mais moderno no papel, pode acabar sendo mais regressivo e mais caro do que o sistema atual. A multiplicidade de exceções e regimes especiais dificulta a neutralidade do imposto e abre espaço para disputas judiciais. Em um país historicamente litigioso como o Brasil, isso representa risco real à segurança jurídica — elemento fundamental para o investidor institucional.  Ao mesmo tempo, no plano internacional, a imagem do Brasil começa a sofrer desgastes perceptíveis. Em junho, a revista britânica The Economist publicou uma reportagem de grande repercussão na qual classifica o presidente Lula como “incoerente no exterior e impopular em casa”. A matéria aponta o alinhamento do Brasil com regimes como Irã, China e Rússia no âmbito dos BRICS, criticando a diplomacia brasileira por se afastar dos EUA e da Europa e adotar um tom ambíguo diante de conflitos como a guerra na Ucrânia.  Para a publicação, o Brasil caminha para uma posição periférica no debate global, perdendo relevância estratégica ao se isolar das principais democracias ocidentais. Essa crítica não passou despercebida no mercado, que já vinha observando a deterioração do relacionamento entre o governo brasileiro e parceiros tradicionais como os Estados Unidos. Em um mundo cada vez mais polarizado geopoliticamente, a posição externa do Brasil pode influenciar diretamente o apetite do investidor estrangeiro por ativos locais.  A resposta do Itamaraty foi imediata, mas pouco eficaz no sentido de reverter a percepção externa. O ministro Mauro Vieira defendeu a atuação do presidente, mas os argumentos institucionais não foram suficientes para acalmar os temores do mercado sobre o isolamento diplomático crescente.  Em paralelo, os investidores estrangeiros seguem atentos ao cenário global. O mês de junho foi marcado por estímulos anunciados pela China e pela fraqueza dos dados econômicos nos Estados Unidos — o que levou o mercado a renovar as apostas de corte de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano. Esse alívio externo, somado ao recuo da curva de juros local, ajudou a sustentar os preços dos ativos brasileiros, em especial no mercado acionário e em fundos de crédito.  Mesmo assim, é importante reforçar que a melhora recente está muito mais relacionada a fatores exógenos e técnicos do que a uma confiança genuína no ambiente institucional brasileiro. Os desafios domésticos continuam relevantes e estruturais: pressão fiscal,

Carta Mensal aos Clientes – Maio 2025

Homeme refletindo sobre a Carta mensal da wiT

“A história não oferece exemplo de uma nação que tenha se beneficiado da desvalorização prolongada de sua moeda.“ Ludwig von Mises Cenário Local O ambiente econômico brasileiro vive uma fase de sensível reprecificação, refletindo uma combinação de fatores fiscais, políticos e de desconfiança institucional. Após um primeiro trimestre relativamente estável, o mês de abril trouxe uma deterioração clara nas expectativas, tanto por eventos domésticos quanto pela influência do cenário internacional. A reavaliação da trajetória da taxa Selic, a escalada da dívida pública e os ruídos na comunicação do governo contribuíram para um ambiente de maior aversão a risco e aumento dos prêmios exigidos pelos investidores. No epicentro da recente crise de credibilidade esteve o episódio envolvendo o aumento do IOF sobre fundos no exterior. O movimento, articulado inicialmente pelo Ministério da Fazenda como uma tentativa de reforçar o compromisso fiscal, foi mal-recebido pelo mercado. A medida foi interpretada como um controle de capitais, com risco direto para os fluxos de investimento internacional e o setor de fundos multimercados. A falta de coordenação interna, o vazamento precoce da informação e a ausência de comunicação clara agravaram o cenário. O governo precisou recuar em poucas horas, excluindo os fundos internacionais do escopo da taxação, em um novo decreto publicado às 22h30. Esse episódio expôs fragilidades importantes na articulação política e técnica da equipe econômica. O ministro Fernando Haddad, que buscava retomar protagonismo, acabou isolado. Enquanto isso, o Congresso, setores do rentismo e até agências de rating — como a Moody’s — elevaram o tom, num movimento percebido como um ataque sincronizado à condução fiscal do governo. A dívida pública federal atingiu R$ 7,6 trilhões, alta de 1,44% em abril, enquanto a dívida bruta chegou a 76,2% do PIB, com o superávit primário ficando abaixo do esperado. A apropriação de R$ 70,3 bilhões em juros no período reforça o peso crescente do serviço da dívida no orçamento nacional. A instabilidade institucional também ganhou destaque. A declaração do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, defendendo o aumento do IOF como uma forma de “justiça tributária”, acirrou os ânimos entre Executivo e Congresso. A medida foi duramente criticada por agentes de mercado e parte da base legislativa, evidenciando a fragilidade da articulação política em um cenário pré-eleitoral cada vez mais sensível. Com a eleição presidencial de 2026 já no radar, movimentos populistas e disputas narrativas tendem a ganhar força, o que amplia a percepção de risco político. Apesar do ambiente turbulento, grandes instituições financeiras internacionais como JP Morgan e Bank of America elevaram sua exposição ao Brasil. O movimento, embora contraditório à primeira vista, reflete o entendimento de que o país, mesmo sob pressão, ainda apresenta assimetrias atrativas e preços descontados — especialmente quando comparado a pares emergentes. Diante de tudo isso, reforçamos a importância de estratégias defensivas, diversificação prudente e gestão ativa de portfólios. O momento exige disciplina, seletividade e um olhar apurado para os riscos institucionais, fiscais e de governança, que hoje são os principais vetores de oscilação no mercado local. Cenário Internacional O ambiente global continua marcado por um equilíbrio tênue entre resiliência econômica e tensões geopolíticas em expansão. Após um primeiro trimestre de crescimento robusto em diversas regiões — com destaque para países como Brasil, Índia e EUA —, o segundo trimestre iniciou com reprecificação de riscos, frustrações com o calendário de cortes de juros e aumento da fragmentação institucional. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve sua posição cautelosa frente à inflação persistente, especialmente em serviços. O mercado de trabalho continua forte, o que dá ao Fed espaço para postergar o ciclo de cortes. A curva de juros americana voltou a se inclinar, refletindo não apenas a resiliência da economia, mas também crescentes preocupações fiscais. O déficit público ultrapassa 7% do PIB, e os vértices longos dos Treasuries exigem prêmios mais elevados. Em paralelo, o dólar se fortaleceu, pressionando moedas emergentes e adicionando volatilidade à precificação dos ativos globais. No campo geopolítico, maio foi atravessado por uma série de episódios que aumentaram a tensão nas relações internacionais. A Comissão Europeia lamentou “veementemente” o aumento das tarifas norte-americanas sobre o aço, classificando a medida como um fator de incerteza adicional para a economia global. Donald Trump, ampliou os atritos com o Sul Global, incluindo um encontro constrangedor com o presidente sul-africano e declarações agressivas sobre parceiros comerciais. Ainda assim, as bolsas europeias fecharam o mês em alta, impulsionadas por ganhos nos setores industrial e tecnológico. O apetite por risco em regiões fora dos EUA vem crescendo, sustentado por estímulos localizados — como os adotados recentemente na China — e pela busca por valuation mais atrativo. A Índia, por exemplo, além de manter ritmo acelerado de crescimento, projeta abrir mais de 1 milhão de vagas voltadas à inteligência artificial até 2026, consolidando sua estratégia de transformação tecnológica. No Oriente Médio, o conflito entre Israel e o Hamas permanece latente. Apesar da sinalização do grupo pela retomada imediata das negociações de cessar-fogo, episódios como o ataque com coquetéis molotov em um ato pró-Israel nos EUA reforçam o risco de radicalização e exportação da crise. A reação internacional é polarizada: enquanto o chanceler saudita acusa Israel de bloquear a paz, a Conib aponta declarações de líderes latino-americanos como combustível para o antissemitismo. Ao mesmo tempo, a revolução tecnológica avança de forma desigual. A Índia e a Alemanha, por meio de iniciativas como as da Siemens, têm enfatizado o potencial do uso eficiente de dados e IA. O lançamento do Veo 3 pelo Google — modelo de IA que gera vídeos realistas — e a crescente oferta de cursos gratuitos por instituições como a FGV são reflexo da aceleração educacional e corporativa voltada à adaptação digital. O ambiente global continua marcado por um equilíbrio tênue entre resiliência econômica e tensões geopolíticas em expansão. Após um primeiro trimestre de crescimento robusto em diversas regiões — com destaque para países como Brasil, Índia e EUA —, o segundo trimestre iniciou com reprecificação de riscos, frustrações com o calendário de cortes de juros e aumento

Carta Mensal aos Clientes – Abril 2025

A tarefa da economia não é prever o futuro, mas tornar os riscos mais claros. ” John Kenneth Galbraith” Cenário Local O mês de abril trouxe uma sucessão de acontecimentos relevantes que, embora impactantes em termos noticiosos, não se traduziram em movimentos expressivos nos ativos domésticos. Esse descolamento evidencia um comportamento típico de “calmaria aparente”, com o mercado local navegando em patamares recordes – a Bolsa brasileira atingindo all-time high – enquanto as atenções seguem concentradas em fatores exógenos. Esse desequilíbrio nos preocupa do ponto de vista tático: a falta de estresse atual pode ser ilusória e, quando a maré virar, o impacto tende a ser abrupto e potencialmente semelhante ao observado no final do ano passado, com dólar disparando e mercado acionário corrigindo de forma abrupta.   No front internacional, a XP destacou que, apesar do aumento do interesse por ações e ouro – ambos impulsionados por um ambiente global de incerteza e busca por ativos de proteção –, a renda fixa permanece como a classe de ativos mais demandada. Esse comportamento reflete um apetite global por segurança e previsibilidade, algo que se contrapõe à instabilidade percebida em mercados emergentes como o Brasil.   Os dados mais recentes do Banco Central reforçam a leitura cautelosa: o investimento estrangeiro em ações brasileiras registrou saldo negativo de US$ 2,71 bilhões em março, enquanto os aportes em títulos de renda fixa no país tiveram saída líquida de US$ 841 milhões no mesmo período. Esse fluxo negativo demonstra claramente a relutância dos investidores globais em manter exposição local, algo que afeta a liquidez e pode intensificar movimentos adversos quando houver realocação de portfólio em escala.   No campo fiscal, a Dívida Pública Federal voltou a crescer, atingindo a impressionante marca de R$ 7,51 trilhões em março, uma alta de 0,22% no mês. Apesar de o setor público ter apresentado um superávit primário de R$ 3,588 bilhões e a dívida pública bruta ter recuado para 75,9% do PIB, o alerta estrutural permanece: segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil deverá figurar como a 15ª maior dívida pública do mundo até 2030, com um índice de endividamento projetado em 99,4% do PIB. A tendência de deterioração estrutural cria um cenário desafiador para a gestão fiscal de longo prazo.  Essa preocupação é reforçada pelo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, que revela um descompasso perigoso: enquanto as despesas obrigatórias crescem ininterruptamente, a previsão de receitas permanece otimista e potencialmente superestimada. O risco? Um cenário de colapso já em 2027, com recursos insuficientes para manter a máquina pública funcionando. Destacam-se aqui as despesas com precatórios e emendas parlamentares, que comprometem boa parte do orçamento discricionário e fragilizam ainda mais a sustentabilidade fiscal.   No plano político, o Brasil volta ao foco com a instauração da CPI do INSS. O escândalo, desvendado pela Operação Sem Desconto, expôs fraudes bilionárias em benefícios previdenciários, envolvendo convênios entre o INSS e entidades de classe. A complexidade do caso – que remonta a falhas regulatórias e operacionais desde 2020 – fragiliza ainda mais a confiança institucional e cria mais uma camada de incerteza para o ambiente doméstico.  Por ora, apesar desses sinais de alerta, o mercado segue resiliente. No entanto, o excesso de otimismo, descolado da realidade fiscal e da fragilidade institucional, pode ser um risco latente. Investidores devem, portanto, manter uma postura prudente e diversificada, com especial atenção para proteção cambial e exposição a ativos globais, mitigando potenciais impactos abruptos advindos de um cenário que hoje parece tranquilo, mas cuja vulnerabilidade estrutural é inegável.   Seguimos atentos aos desdobramentos e reforçamos nosso compromisso em manter estratégias de investimento sólidas e alinhadas ao perfil de risco de cada cliente, priorizando segurança patrimonial em meio a um ambiente que, embora aparentemente estável, segue carregado de desafios.  Cenário Internacional Abril se encerrou com os mercados globais navegando entre sinais contraditórios: enquanto os resultados corporativos robustos – como os de Microsoft e Meta – trouxeram alívio e sustentaram altas relevantes nas bolsas americanas, os fundamentos macroeconômicos continuaram a indicar prudência. O S&P 500, por exemplo, avançou 0,6% na última sessão do mês, enquanto o Nasdaq subiu expressivos 1,5%, puxados pelo otimismo renovado com a inteligência artificial.  Entretanto, por trás desse ambiente aparentemente positivo, destacam-se tensões comerciais crescentes que pressionam a dinâmica global. A crise de taxações entre Estados Unidos, União Europeia e China atingiu novo patamar: Washington sinalizou tarifas elevadas com vigência a partir de julho, enquanto Bruxelas articula uma oferta bilionária para ampliar compras de produtos americanos e assim evitar medidas mais drásticas. Essa movimentação tem potencial para aliviar parte da pressão no curto prazo, caso um acordo seja selado, mas não elimina o risco de fragmentação global mais profunda em função da intensificação das políticas protecionistas. A China, por sua vez, intensifica o diálogo bilateral e reitera a necessidade de “sinceridade” nas negociações.  Do ponto de vista macroeconômico, os Estados Unidos apresentam um quadro misto. O Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE), termômetro preferencial do Federal Reserve, trouxe uma leitura ligeiramente acima da expectativa anual, marcando 2,3% contra os 2,2% projetados. No entanto, o núcleo do índice veio estável, em linha com as previsões, apontando sinais de resiliência na trajetória desinflacionária. Por outro lado, a primeira prévia do PIB do 1T25 registrou inesperada contração de 0,3%, frustrando as expectativas de expansão e gerando impactos negativos temporários nos índices acionários.  A confiança do consumidor, medida chave para projeções futuras, manteve sua trajetória descendente, caindo para 86,0 pontos em abril, bem abaixo dos 93,9 anteriores. Apesar desse viés negativo, o mercado manteve relativa estabilidade, sustentado por resultados corporativos acima do esperado e pela expectativa de avanço nas negociações comerciais, além de uma perspectiva ainda construtiva para a economia americana no médio prazo.  Adicionalmente, vale destacar que o cenário tecnológico global está sob escrutínio. A China iniciou uma ofensiva regulatória robusta para conter abusos no uso da inteligência artificial, enquanto o Google lançou novas funcionalidades em sua IA Gemini, reforçando a corrida tecnológica. No Brasil, a nova legislação de IA também promete

Carta Mensal aos Clientes – Março 2025

“No curto prazo, o mercado é uma máquina de votar; no longo prazo, é uma balança.” – Benjamin Graham Cenário Local O mês de março foi marcado por uma crescente sensação de desconforto no ambiente doméstico. A economia brasileira, embora resiliente em alguns indicadores, vem apresentando sinais de enfraquecimento diante do agravamento do quadro fiscal, do aumento da incerteza política e de um ambiente de negócios cada vez mais pressionado por intervenções e mudanças regulatórias. Essa combinação exige cautela e reavaliação das estratégias de alocação. O ponto mais sensível no momento é o fiscal. A carga tributária brasileira atingiu 32,3% do PIB em 2024, o maior patamar em 15 anos, impulsionada por medidas de recomposição de receitas e alterações promovidas na Emenda Constitucional nº 132/2023, que instituiu a nova reforma tributária. Embora a promessa de simplificação do sistema tenha sido amplamente divulgada, o efeito prático inicial foi uma complexidade ainda maior e o aumento da alíquota estimada do novo IVA para 28%, colocando o Brasil no topo do ranking global de tributação sobre consumo. A inclusão das carnes na cesta básica com alíquota zero e o tratamento diferenciado para uma série de produtos ampliaram distorções e elevaram as projeções de arrecadação de forma regressiva. Enquanto isso, o Tesouro Nacional divulgou que a dívida pública federal atingiu R$ 7,49 trilhões em fevereiro, com alta de 3,3% em relação ao mês anterior. O custo médio da dívida mobiliária interna também subiu, de 11,40% para 11,57% ao ano, reflexo do ambiente de juros elevados e da percepção de risco crescente. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem reiterado o compromisso com o equilíbrio fiscal, mas os sinais práticos ainda são frágeis diante da dificuldade política de implementar cortes de gastos estruturais. No mercado de crédito, o episódio envolvendo o Banco Master reacendeu a atenção sobre os mecanismos de supervisão e a robustez do sistema financeiro nacional. Com um volume de cerca de R$ 50 bilhões emitidos em CDBs lastreados no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a possível operação de compra pelo BRB por R$ 2 bilhões – contrastando com a proposta simbólica de R$ 1 feita pelo BTG – trouxe à tona questionamentos sobre o uso do FGC como instrumento de salvaguarda em operações de risco e as consequências potenciais para o sistema como um todo. Essa deterioração fiscal, combinada ao aumento da dívida pública e à fragilidade política, começa a impactar os mercados de forma mais evidente. Os títulos públicos de longa duração têm apresentado quedas expressivas. O Tesouro IPCA+ 2045, por exemplo, acumula perda de -8,95% nos últimos 12 meses. Para o investidor que observa essa marcação negativa no extrato, o dilema é claro: carregar ou vender? É fundamental compreender que, salvo em situações de necessidade de liquidez, vender nesse momento significa realizar uma perda que pode ser revertida no longo prazo, desde que o investidor mantenha o título até o vencimento. Em paralelo, ativos de crédito privado estruturado, como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), têm ganhado protagonismo. Com lastros em recebíveis empresariais e estruturação adequada de garantias e subordinadas, esses fundos oferecem retornos atrativos e menor volatilidade de mercado. Em um ambiente de instabilidade política e tributária, ativos que se descolam da marcação a mercado diária e proporcionam previsibilidade de fluxo ganham valor na construção de carteiras. O comportamento do consumidor e do setor produtivo também tem refletido o aumento da incerteza. A elevação do teto dos juros do consignado do INSS para 1,85% ao mês e o crescimento da inadimplência entre pequenas empresas sugerem que o ambiente de crédito tende a permanecer restritivo. Apesar da manutenção da Selic em patamares elevados, a capacidade de estímulo da política monetária está limitada pela piora das expectativas fiscais e pelo aumento do risco-país. Por fim, vale destacar a crescente politização de decisões econômicas. O ministro Haddad atribuiu recentemente a queda de popularidade do presidente Lula a “problemas globais”, mas o mercado reage, acima de tudo, a sinais concretos de responsabilidade fiscal, segurança jurídica e previsibilidade institucional – todos pontos que seguem pressionados. Cenário Internacional O mês de março consolidou uma dinâmica global marcada por volatilidade geopolítica, resiliência econômica e avanços tecnológicos com potenciais implicações para os mercados. Em um ambiente ainda condicionado por tensões diplomáticas e instabilidades regionais, os principais vetores macroeconômicos mostraram relativa robustez — ainda que com importantes sinais de reavaliação dos riscos por parte dos investidores institucionais. Nos Estados Unidos, o ciclo de política monetária permanece ancorado na perspectiva de juros elevados por um período mais prolongado (“higher for longer”), reforçado por dados ainda sólidos do mercado de trabalho e uma inflação que, embora desacelerando, segue pressionada por fatores estruturais como o custo dos serviços. A curva dos Treasuries reflete esse ambiente, com a Treasury de 10 anos se mantendo na faixa dos 4,30%, após ter tocado máximas acima de 4,80% no início do ano. No entanto, começa a se consolidar entre os investidores a expectativa de que, mesmo sem cortes no curto prazo, o aperto monetário pode ter alcançado seu pico. Esse cenário de política monetária norte-americana também se projeta sobre os mercados emergentes. Apesar da ausência de fluxos relevantes para a classe de ativos nos últimos trimestres, os bonds soberanos e corporativos da América Latina têm mostrado um perfil de risco-retorno bastante atrativo. Destacam-se Colômbia e México, ambos investment grade, com spreads historicamente interessantes frente aos títulos brasileiros, mesmo mantendo maior qualidade de crédito. Particularmente, a Colômbia chama a atenção pelo perfil fiscal desafiador, mas com boas perspectivas políticas em função das eleições presidenciais em 2026, o que já vem sendo precificado positivamente pelo mercado. Já a Argentina, protagonista de um dos mais expressivos turnarounds econômicos recentes, experimenta forte valorização de seus ativos de crédito, com a política fiscal de Milei promovendo superávits inéditos e controle inflacionário em tempo recorde. A depender da negociação com o FMI e do avanço em reformas institucionais, o país pode, em breve, recuperar o acesso pleno aos mercados internacionais de capitais. Na Europa, o alívio inflacionário reforçou

Carta Mensal aos Clientes – Janeiro 2025

A dificuldade não está em desenvolver novas ideias, mas em escapar das antigas.” John Maynard Keynes Cenário Local O mês de janeiro, tradicionalmente marcado pelo recesso político, trouxe uma pausa importante para a economia brasileira, que seguiu seu curso sem os impactos das disputas internas que frequentemente paralisam o país. Essa calmaria revelou a necessidade de um ambiente político mais harmônico, que permita ao Brasil avançar sem as distrações das brigas partidárias. Contudo, essa tranquilidade não deve mascarar os desafios que exigem ações coordenadas e urgentes.  Para que o Brasil continue no caminho do crescimento, é essencial que a política se distancie das polarizações e busque um alinhamento em torno dos interesses nacionais. O país não pode ser refém de divisões internas o foco precisa ser nas reformas estruturais que garantam a sustentabilidade fiscal e o crescimento econômico. Agora é o momento de unir forças e tomar decisões responsáveis que proporcionem um futuro próspero para todos os brasileiros.  Diante de um cenário repleto de desafios e incertezas políticas e fiscais, o Brasil se vê à beira de um impasse crítico que exige não apenas reflexões profundas, mas também ações imediatas e coordenadas para evitar que a economia do país siga uma trajetória de instabilidade prolongada. No cerne desse desafio está a ausência de uma política fiscal robusta, que permita não apenas a redução da dívida pública, mas também o restabelecimento da confiança dos investidores no país. A fragilidade fiscal, aliada a uma política monetária expansionista em um contexto de gastos elevados, cria um cenário que favorece a inflação e o aumento do déficit público, pressionando negativamente o mercado e, consequentemente, o poder de compra da população.  A necessidade de uma coordenação precisa e eficaz entre as políticas fiscal e monetária não é uma mera recomendação, mas uma exigência urgente para que o Brasil possa retomar o crescimento sustentável e reconquistar a confiança dos agentes econômicos. A política fiscal, longe de ser um elemento secundário, precisa ser vista como o pilar central para a estabilização da economia.  O contínuo aumento dos gastos públicos, sem o devido controle e sem uma estratégia de longo prazo para redução da dívida, coloca o país em uma posição de vulnerabilidade crescente. Nesse contexto, a política monetária, ao tentar conter os efeitos da inflação e o descontrole fiscal, se vê forçada a adotar medidas restritivas, como a manutenção de juros elevados. Esse ciclo vicioso cria uma espiral de incertezas que limita as possibilidades de crescimento econômico e exacerba as dificuldades já enfrentadas pela população.  Uma medida recente que pode agravar esse cenário é a isenção de R$ 5.000,00 no Imposto de Renda, proposta como uma tentativa de alívio para a classe média. Embora bem-intencionada, essa medida resulta em uma perda significativa na arrecadação do governo, o que pode agravar ainda mais as pressões fiscais já existentes. Em um momento em que o país carece de reformas fiscais urgentes, a diminuição na arrecadação pode colocar em risco a estabilidade das contas públicas, levando a um aumento do déficit fiscal. O impacto disso no mercado será inevitável, pois, à medida que o risco fiscal se eleva, o prêmio de risco no mercado tende a crescer, dificultando o acesso ao crédito e aumentando o custo de financiamento para o setor público e privado.  Além disso, sob o ponto de vista monetário, essa redução na arrecadação pode forçar o Banco Central a adotar políticas monetárias ainda mais restritivas, perpetuando a elevação das taxas de juros. A combinação de um alto prêmio de risco e juros elevados cria um cenário de baixo crescimento econômico e altos custos para a população, especialmente para as camadas mais vulneráveis da sociedade. Nesse contexto, a flexibilidade fiscal do governo se torna cada vez mais limitada, e a capacidade do Banco Central de equilibrar o crescimento econômico com a estabilidade financeira se estreita.  Em meio a essa complexidade, os discursos de figuras políticas, como Hugo Mota e Davi Alcolumbre, merecem uma análise cuidadosa. Hugo Mota, ao assumir a presidência da Câmara dos Deputados, enfatiza a importância da unidade e da construção de consensos entre os poderes, destacando que o objetivo final das ações políticas deve ser a melhoria das condições de vida da população brasileira.  Sua ênfase na democracia e na harmonia entre os poderes reflete uma visão de um Brasil mais unido e focado em resultados concretos, como emprego, segurança, educação e saúde pública de qualidade. No entanto, é necessário destacar que a conjuntura fiscal do país impõe limitações severas a esse discurso de otimismo. A falta de uma política fiscal clara e responsável pode resultar em um crescimento desacelerado e em um aumento da dívida pública, o que, inevitavelmente, comprometerá a capacidade do governo de implementar políticas eficazes.  Davi Alcolumbre, por sua vez, ao reafirmar seu compromisso com a democracia e com a busca pelo bem-estar do povo brasileiro, também coloca a responsabilidade de sua presidência como algo coletivo, buscando não o protagonismo, mas a construção de consensos que atendam aos anseios da população. No entanto, a promessa de trabalhar pela geração de empregos e pelo desenvolvimento social, em um contexto de incertezas fiscais e monetárias, depende de uma ação concreta e eficaz em relação às finanças públicas. A confiança política e o compromisso com o crescimento social são essenciais, mas eles precisam ser acompanhados de reformas estruturais que possam, de fato, aliviar a pressão fiscal e trazer estabilidade à economia. Em um ambiente de juros elevados e de incertezas fiscais, é impossível garantir o crescimento sem que a política fiscal do país seja reequilibrada e ajustada.  A situação é ainda mais desafiadora diante da crescente complexidade econômica do Brasil. Embora o país busque se modernizar e diversificar suas estratégias, os desafios fiscais e monetários persistem como fatores limitantes. A implementação de reformas fiscais e a busca por estabilidade monetária são essenciais para garantir um cenário mais favorável para o crescimento e para atrair investidores internacionais. A confiança no Brasil só poderá ser restaurada quando o país assumir, de forma clara e responsável,

Carta Mensal aos Clientes – Perspectivas 2025

“A dificuldade não está em desenvolver novas ideias, mas em escapar das antigas.” John Maynard Keynes Cenário Local A economia brasileira em 2025 enfrenta um momento de ajustes e desafios. Após um período de crescimento acima da média, impulsionado por políticas fiscais expansionistas, o país entra em uma fase de desaceleração econômica marcada por um aperto monetário e fiscal. Essa transição tem como objetivo restabelecer o equilíbrio macroeconômico, com destaque para a redução da inflação, que deve permanecer acima da meta em parte do ano.    O Banco Central adotou uma postura mais agressiva em relação à taxa Selic, que se manteve elevada para conter as expectativas inflacionárias. Projeta-se um leve afrouxamento monetário a partir do segundo semestre, dependendo do sucesso em controlar os índices de preços. Entretanto, essa política tem impactado diretamente os setores de consumo e investimentos, criando um ambiente desafiador para as empresas locais. O crescimento do PIB, após superar 3% em anos anteriores, deve desacelerar para cerca de 2%, refletindo tanto as restrições fiscais quanto o impacto do aumento de juros sobre a atividade econômica.   No campo fiscal, o governo enfrenta a necessidade de ajustar as contas públicas. A relação dívida/PIB permanece elevada, exigindo reformas estruturais para conter o crescimento das despesas obrigatórias. O avanço da reforma tributária, incluindo a implementação do novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA), promete trazer maior previsibilidade e eficiência ao sistema, mas também pode gerar resistências de setores específicos, como o agronegócio.  Outro ponto de destaque é a volatilidade do mercado cambial. Embora o real possa se beneficiar de fluxos externos, particularmente em razão de taxas de juros atrativas para investidores estrangeiros, o cenário global de desaceleração econômica e menor apetite por risco pode limitar ganhos. Dessa forma, espera-se que a moeda opere com flutuações significativas ao longo do ano.   Além disso, as projeções da XP apontam um crescimento do PIB de aproximadamente 2% em 2025, reforçando o cenário de moderação econômica. As expectativas para a inflação, apesar do recuo gradual, ainda permanecem acima da meta, com a taxa Selic sendo ajustada gradualmente para níveis mais baixos ao longo do ano. Esses indicadores refletem um momento de transição, no qual a política monetária e fiscal terá papel crucial para estabilizar a economia e estimular setores estratégicos. A XP destaca ainda o potencial de recuperação em áreas ligadas à exportação e ao agronegócio, enquanto setores voltados ao consumo interno podem enfrentar maior pressão.  O CDI, considerado o “algoz” da diversificação em 2024, continua sendo um tema relevante para 2025. No último ano, a forte performance do CDI em um contexto de juros elevados superou muitas outras classes de ativos, reforçando o desafio de buscar alternativas para diversificação que apresentem retorno competitivo. Esse fenômeno evidenciou a dificuldade dos investidores em construir portfólios balanceados em um cenário de alta rentabilidade em renda fixa. Com a expectativa de flexibilização monetária no segundo semestre 2025, o CDI deve perder parte do brilho, abrindo espaço para um maior interesse em ativos mais arriscados, mas que podem oferecer um melhor equilíbrio risco-retorno no longo prazo.   No setor empresarial, empresas dependentes do mercado interno devem sentir o impacto da combinação de juros altos e restrições fiscais. A bolsa brasileira enfrenta desafios, com uma combinação de revisões de lucros para baixo e menor liquidez, especialmente em setores mais expostos ao ciclo doméstico, como varejo e construção civil. Áreas ligadas à exportação, por outro lado, podem apresentar resiliência devido à manutenção de preços competitivos de commodities no mercado global.  Cenário Internacional No âmbito internacional, 2025 se desenha como um ano de desafios e transformações estruturais. Nos Estados Unidos, a administração Trump tem adotado políticas protecionistas que incluem aumento de tarifas comerciais e desregulamentação, buscando reposicionar a economia americana como líder em competitividade global.   Essas medidas, embora promissoras para setores específicos, como manufatura e tecnologia, têm gerado preocupações em relação à inflação estrutural e à possibilidade de recessão. A taxa de juros nos Estados Unidos deve se manter em patamares relativamente altos, garantindo a atratividade do dólar como porto seguro, mas também dificultando condições de crédito para setores mais vulneráveis. Dentro do mercado acionário, a performance das “Magnificent 7” (Apple, Google, Microsoft, META, Tesla, Nvidia e Amazon) em relação ao restante do S&P 500 tem chamado atenção. Entre 2023 e 2024, enquanto as “Mag 7” obtiveram uma valorização expressiva, impulsionadas pela expansão da inteligência artificial e de tecnologias de ponta, o restante do índice teve ganhos muito mais modestos. Esse descolamento reflete uma concentração de retornos em poucos setores, destacando riscos e oportunidades para investidores em 2025, que devem considerar cuidadosamente a diversificação dentro do mercado americano. Na China, a desvalorização do yuan tem se consolidado como uma estratégia para neutralizar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Essa política de desvalorização cambial busca estimular a competitividade dos produtos chineses no mercado global, compensando os custos adicionais gerados pelas tarifas comerciais.  Além disso, a China tem intensificado suas compras de ouro, reforçando suas reservas como uma estratégia para reduzir a dependência do dólar e fortalecer a estabilidade de sua economia em um ambiente internacional volátil. Esse movimento estratégico reflete um esforço contínuo do governo chinês para garantir maior resiliência frente a flutuações cambiais e geopolíticas.  Como consequência, o yuan enfraquecido pode consolidar ainda mais a posição do dólar americano como moeda de referência global, ao mesmo tempo em que intensifica as tensões entre as duas maiores economias do mundo. Essa dinâmica também aumenta os desafios para países emergentes, que enfrentam pressões cambiais e financeiras diante de um cenário de dólar fortalecido. Na Europa, a política monetária do Banco Central Europeu continua expansionista, buscando apoiar economias fragilizadas por crises internas e externas. A região enfrenta desafios significativos, incluindo o alto endividamento de alguns países membros e a transição energética para fontes mais sustentáveis. Já a China, embora continue crescendo, demonstra sinais de desaceleração devido ao enfraquecimento do setor imobiliário e à necessidade de reestruturar sua economia para um modelo mais baseado no consumo interno. No campo das commodities, a estabilização dos preços reflete um

Carta Mensal Aos Clientes – Dezembro 2024

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” Charles Darwin Cenário Local – Dezembro 2024 Ao nos despedirmos de 2024, refletimos sobre um ano que ficará marcado como um dos mais desafiadores para a economia brasileira. Este foi um ano em que a busca pelo equilíbrio fiscal e a estabilização econômica enfrentaram dificuldades enormes, enquanto a sociedade conviveu com incertezas crescentes e pressões significativas sobre o custo de vida. Os eventos que se desenrolaram neste ano nos oferecem uma oportunidade para refletir sobre o que foi feito, onde erramos e quais lições podemos levar adiante para um futuro mais estável e próspero.   Logo no início do ano, as expectativas para 2024 eram razoavelmente moderadas. O crescimento econômico projetado de 1,5%, uma taxa Selic em torno de 10%, e um câmbio próximo a R$4,80 pareciam previsões viáveis, dado o cenário global de desaceleração e os desafios fiscais que o Brasil já enfrentava. No entanto, ao longo do ano, vimos esses indicadores se distanciar cada vez mais das previsões iniciais, à medida que fatores internos e externos moldavam um panorama mais desafiador do que se imaginava. Agora, no último mês do ano, em 26 de dezembro, a bolsa está em 121.077 pontos, o dólar alcança R$6,16, a Selic encontra-se em 12,25%, e a inflação acumulada até novembro é de 4,87%, com expectativas de 100% de fechar acima da meta estipulada pelo Banco Central.   No início de 2024, a economia brasileira apresentava sinais de superaquecimento. O entusiasmo inicial foi sustentado por uma arrecadação recorde: nos dez primeiros meses, a receita federal somou R$ 2,182 trilhões, um aumento real de 9,69% em relação ao mesmo período de 2023. Em termos nominais, isso representou um crescimento de 14,40%, configurando o melhor desempenho arrecadatório desde 1995. Contudo, mesmo com esse incremento notável na arrecadação, o governo não conseguiu encerrar o ano com um déficit fiscal de R$ 55,373 bilhões, ressaltando um descompasso persistente entre receitas e despesas.  Gastos Públicos e Pressão Fiscal Boa parte do desequilíbrio fiscal está relacionada à expansão permanente de programas sociais e as novas políticas salariais. Em 2023, as despesas primárias do governo federal representaram 19,6% do PIB, um aumento expressivo em comparação aos anos anteriores, quando esse percentual girava em torno de 17,8%. Em 2024, essa tendência de crescimento se manteve, impulsionada pela ampliação do Bolsa Família e outras iniciativas que aumentaram significativamente as despesas obrigatórias. Embora essas medidas tenham atendido demandas sociais importantes, sua implementação sem cortes compensatórios em outras áreas pressionou as contas públicas de maneira insustentável.   Paralelamente, vimos a aprovação de um novo modelo de imposto sobre valor agregado (IVA), cuja alíquota alcançou impressionantes 28%, a mais alta do mundo. Apesar de seu objetivo inicial ser simplificar o sistema tributário e aumentar a arrecadação, sua implementação trouxe consequências inesperadas, especialmente para setores como o alimentício, que sofreram com a exclusão de produtos básicos, como carnes, da alíquota zero. Esse aumento de carga tributária impactou diretamente a inflação e reduziu o poder de compra das famílias brasileiras.   A dinâmica fiscal tensa também se refletiu na relação do governo com o Banco Central. Desde o início do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023, a autonomia do Banco Central foi alvo de questionamentos, culminando em conflitos políticos que polarizaram a discussão pública. Em 2024, essa disputa se intensificou, com o presidente criticando o nível da taxa Selic e mobilizando apoiadores contra a postura conservadora da autoridade monetária. Essa tensão dificultou a implementação de políticas coerentes e aumentou a percepção de instabilidade institucional.  Inflação, Taxa de Juros e Câmbio Ao longo de 2024, a inflação mostrou-se persistente, encerrando o ano acima da meta estipulada pelo Banco Central. Em novembro, o índice acumulado em 12 meses alcançou 4,87%, e as expectativas indicavam 100% de chance de fechar o ano fora do intervalo permitido. Essa inflação elevada foi influenciada por diversos fatores, incluindo o aumento da carga tributária, a desvalorização cambial e a pressão dos gastos governamentais.   A taxa de juros também foi um elemento central no cenário econômico. Começando o ano em 11,75%, a Selic alcançou 12,25% em dezembro, em um esforço do Banco Central para controlar as pressões inflacionárias. No entanto, o alto custo do crédito gerou impactos adversos sobre as empresas e os consumidores. Os pedidos de recuperação judicial aumentaram significativamente, refletindo as dificuldades financeiras enfrentadas por muitos setores.   No mercado cambial, 2024 foi um ano de volatilidade extrema. O dólar, que iniciou o ano cotado a R$4,89, encerrou dezembro em R$6,16, pressionado por fatores como a instabilidade política interna, a fragilidade fiscal e o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos. Essa desvalorização cambial encareceu as importações, afetando tanto a inflação quanto a competitividade das indústrias nacionais que dependem de insumos externos.  Empresas Estatais e Lei Rouanet No campo das empresas estatais, 2024 trouxe desafios financeiros significativos. De janeiro a agosto, as estatais federais acumularam um déficit de R$ 3,3 bilhões, com projeções indicando um total de R$ 3,7 bilhões até o final do ano – o maior déficit desde 2009. Entre as estatais mais impactadas destacaram-se a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron), com um déficit de R$ 2,5 bilhões, os Correios (R$ 2,1 bilhões) e a Infraero, que também registrou resultados negativos expressivos.   Fonte: Poder 360   Enquanto isso, a Lei Rouanet bateu recordes de liberação de recursos. Em 2024, foram autorizados R$ 16,8 bilhões em incentivos fiscais, acumulando R$ 34,4 bilhões em dois anos – o maior valor da história. Embora isso represente um importante impulso para o setor cultural, também gerou debates acalorados sobre a alocação de recursos públicos e a eficiência dessas políticas em um cenário de restrição fiscal.  Oportunidades e Lições para o Futuro Apesar do cenário adverso, 2024 também trouxe oportunidades para investidores e empresas que souberam se adaptar. O mercado de renda fixa destacou-se como uma opção segura em meio à instabilidade, oferecendo proteção contra a inflação e retornos competitivos. Além disso, setores voltados para exportação